11 de Julho de 2009

Diário da Fonte
CRIME DE ASSÉDIO NO G8


Nei Duclós

A cidadã brasileira de 16 anos ( menor de idade, portanto), que representava a juventude carente do Brasil, estava na reunião do G8 a convite da UNICEF. A foto que foi tirar junto aos chamados líderes dos países mais importantes do mundo era, para ela, de grande significado. Caprichou no visual e foi ocupar seu lugar para a fotografia. No movimento em que fez em direção ao seu posto, cruzou com o presidente Barak Obama, eleito depois de campanha cheia de esperança pelas minorias que enfim que chegavam à Casa Branca. O que aconteceu então diz tudo sobre esses espetáculos promovidos para abastecer a mídia de imagens sobre o poder – já que a sociedade do espetáculo vive disso, da reiteração dos papéis sociais, imutáveis.

Aconteceu algo que a própria mídia resolveu tratar como anedota, algo sem importância. Obama lançou um olhar sacana para o traseiro da brasileira (disse que estava olhando para os pés da garota; pé é outra coisa), seguido nesse gesto pelo presidente francês que, todos sabem, é casado com uma profissional da nudez. Como tem em casa o que as revistas escancaram, o gnomo francês acha que pode faltar com o respeito com quem quer que seja, principalmente se for mulher, menor, pobre, do Brasil. Obama e Sardosky são gentinha. Eles não exercem o poder. Exercem a manipulação do espetáculo e se divertem o tempo todo.

O poder está em outras mãos, em outro lugar. Eles apenas apresentam truques de um teatro de marionetes e para isso convocam o Lula, sempre pronto a oferecer seus préstimos, especialmente para o Obama, que agora faz dele moleque de recados para o Irã. Aconteceu algo parecido na época do Collor, em que o Clinton mandou o presidente brasileiro dar um recado para o presidente russo. Collor e Lula, os finalistas do segundo turno de 89, quando derrotaram Brizola, são gentinha do mesmo saco.

Somos representados por bobalhões lúbricos, palermas de esquina, os que ficam coçando o saco e jogando olhares para as mulheres que passam (Collor disse que tinha aquilo roxo, lembram?). Depois se olham significativamente, dando gargalhadas. Pois deve ser muito engraçado esse negócio de ser mulher, não é mesmo? O certo, o bom, é ser um bando de boludos a se roçar diante das câmaras, assediando uma pessoa que foi lá no G8 deslumbrada com a oportunidade de fazer algo importante, útil para sua geração e seu país. Jamais esteve na agenda servir de repasto para o tesão dos mangolões que ocupam palácios luxuosos.

O certo é que nenhum dos dois, Obama e Sardozky, teria coragem de fazer o mesmo gesto para as mulheres dos seus países. Obama porque levaria uma surra, tanto de Hillary quando da esposa dele. E o gnomo francês porque, apesar de estar bem servido de mulher disponível, vive num país com soberania e direitos humanos assegurados. O Brasil não tem nada, só oferece o triste papel de ser enxovalhado em público.

Alguns jornalistas americanos deitaram e rolaram, acharam muito engraçado, claro, trata-se de um machão americano mostrando serviço no Exterior. Na Globo, a foto (tirada de um vídeo, uma cena inteira filmada) foi considerada um sucesso. Não se trata de um sucesso, mas de um escândalo. Mulher negra brasileira menor assediada por dois palhaços (o francês chegou a torcer o tronco todo para curtir melhor): se isso não é escândalo, então me conceituem o que é uma piada.

Não, não foi piada de mau gosto. Foi crime. Assédio puro e simples. Costumo dizer aqui no DF duas frases, confirmadas neste triste episódio. Uma, a de que no concerto internacional das nações, o Brasil entra com a mulher. E a outra é que o Brasil é o rabo do mundo. O rabo dos nossos governantes, bem dito.

De quebra, teve a presença do Berlusconi, fotografado recentemente pelado, numa orgia com prostitutas. Esse tipo de sacana vindo do poder que tem da mídia deveria ser tratado à altura. Nem falo em franco atirador, que fica escondido. Acho que chegou a hora de algo mais explícito. Como seria a filmagem, à luz do dia, de uma metralhadora varrendo as fuças dessa canalha?

9 de Julho de 2009

Diário da Fonte
SINISTRUS JOE E A BARCA DE CARONTE


Nei Duclós

Não tenho falado de Sinistrus Joe porque não costumo visitá-lo com freqüência. Nossa antiga amizade não é suficiente para eliminar o desconforto que ele sente quando aporto na curva da praia. O sábio do puxadinho de pedra, de cara, me aplica as expressões tiau-pra-ti que eu ensinei e que eram comuns na minha terra:
- Tu por aqui? Chegaste agora? E quanto tu vais? Demoras?


Um dia perguntei o motivo da má vontade, se era pessoal. Ele falou que não.
- Passei a minha vida visitando os outros e agora só quero sossego em casa. Não gosto que venham me incomodar aqui onde me refugiei, diz, sem nenhuma ponta de arrependimento diante da visita.
- Mas o que aconteceu de tão grave nessas visitas?
- Vi esses dias uma mini-série produzida aqui no sul que começa com um ágape desses em casa concebida na arquitetura da maconha, conhece?
- Não tenho a menor idéia.
- São essas casas de pé alto, grandes salas, degraus fazendo de conta que são divisórias, salas no sótão com grande janelas para melhor espalhar a fumaça do fumo. Conhece? Tem em todo o litoral, nas serras e até nos subúrbios metidos a besta. É a primeira coisa que me irritava quando eu chegava para conhecer o lar alheio. Depois vinha uma sucessiva intragável e certeira de lugares comuns. O vinhozinho maneiro, o camarazinho não sei o quê, o churrasquinho light, o pratarrão de salada, o arroz amarelo. Tudo com pimentinha, orégano, alho poró e outras gororobas.
- Mas não é bom, não é legal?
- Em tese sim e até eu me divertia às vezes. Mas normalmente me escolhiam para ser a curiosidade da festa. Um dia cheguei de taxi, e foi um escândalo. Como poderia uma criatura, tida como humana, tanto é que foi convidada para o ágape, não ter um carro? E eles dizem carro carregando os erres no fundo da garganta, como um pigarro de coronel, entende?
- Mas tu é implicante, hem, Joe.
- Nada. Aí me colocavam na mesa, sentado no banco mais baixo. Nunca me alcançavam nenhum prato, mas pediam a toda hora para eu passar não sei o que. Quando eu resolvia tomar a iniciativa e me servia, alguém me olhava feio, censurando. Aquilo que eu estava me servindo ou era para a nonna, um visitante mais ilustre, o padre, o pica doce da hora, por aí vai.
- Aliás, continuou o irascível forasteiro, sempre que eu chegava na casa, era a hora errada. Cedo demais, quando nem tinham ainda se preparado e acabavam me dando serviços subalternos para fazer. Ou tarde dmais, quando todo mundo estava ambientado e me davam aquele olhar mortal que me fuzilava o tutano.

Joe continuou com sua arenga:
-Mas o pior mesmo é o cônjuge de quem me convidava. Se fosse esposa, ela se agarrava no filho, certamente para eu não machucar a criança ou dava um encargo para o marido - sair para comprar cerveja, por exemplo – pois assim impedia que o cara me desse atenção. Se fosse marido, então, era pior. O cara começava a rosnar no aperitivo e só terminava quando eu ia embora.
-Então você visitava pessoas desconhecidas, inimigos, gente bruta.
- Nada, colegas de profissão, vizinhos, pessoas que tinha conhecido anos antes e queriam porque queriam me ver. Mas eu sempre me arrependia. E tinha que aturar ainda por cima o cachorrão da vez. Pois é costume, nessas visitas que a gente faz, a presença maciça de um rottweiler, um cão fila, um mastodonte qualquer, gigantesco, com o focinho molhado, que vem te assediar e todo mundo acha uma gracinha. Fareja quase tocando o teu saco, lambe a tua cara, tudo sob o olhar complacente dos donos da casa, dos filhos bandidinhos deles ou do chato – e sempre tem um – que fica rindo.

- Bueno, falei, chega por hoje, não é Joe? Me convenceste que minha visita é inoportuna.
Ele não disse nada. Fui então me retirando. Quando eu ia subir a ladeira do morro para pegar a trilha ele gritou:
- Vê se aparece.
Era quase um eco. Olhei para trás. Sinistrus Joe me pareceu mais velho do que nunca. Abanando pateticamente para mim, talvez arrependido de ter me tratado tão mal. Talvez queira ficar sozinho de vez porque sente que está chegando sua hora. E não quer testemunhas. Espera a barca de Caronte com o punho cerrado, onde guarda uma moeda de cobre, para pagar a última travessia.

Grande Sinistrus Joe, a pessoa que sobrou em todos os momentos e hoje mora com as baleias do inverno, as tainhas do outono, as gaivotas e os raros amigos que não dão bola para suas manhas e ainda o visitam.

RETORNO - Imagem desta edição: La barca de Caronte, de Jose Benlliure Y Gil (1855-1937)

EXTRA - Obama olha “em direção” à brasileira, negra, menor, carente, escolhida para participar da reunião do G-8. O olhar, o gesto, a cara de sem-vergoinha, não deixam dúvidas: é pura sacanagem. O gnomo, o presidente francês, olha divertido (como a dizer: “é isso mesmo, está dando sopa, aproveite”) o gesto do americano com tesão pelo que o Brasil oferece nas viagens intermináveis do ”cara”. O mesmo que presenteou Obama com uma camiseta autografada da seleção. Vejam a expressão de Obama (está em todos os jornais): é puro deboche. Eles nem consideram o futebol, chamado de soccer. Também cagam e andam para o Brasil, palhaço do mundo sob este governo irresponsável, cretino e criminoso. Enquanto os bandidos viajam, os seus asseclas, os bandidos que eles deixam soltos, matam adolescentes com balas perdidas. Vejam a oração desesperada da mãe que quer a filha de volta. A mesma filha que morre com um tiro na boca. Chega, porra!

Diário da Fonte
A FALSA CONVERSA DOS APRESENTADORES


Nei Duclós

Overdose de Rede Globo, mas vamos lá. Virou moda. William Bonner se vira para Fátima Bernardes para transmitir uma parte da notícia. Se fosse uma conversa real, ele estaria informando a colega do assunto. Mas logo em seguida Fátima continua do ponto em que Bonner interrompeu. Ou seja, ela sabia de antemão, claro. Então por que Bonner se virou para ela, fingindo que contava um causo? E pior, porque ela olha interessada como se estivesse sabendo aquilo da boca do apresentador ao seu lado? Por que eles assumem, cada um a seu tempo, fazendo rodízio, o papel do telespectador que escuta e vê?

A idéia é, sendo informais, romper com a barreira que separa os dois, que ficam lado a lado e de frente para o telespectador. Assim, criam um clima descontraído, como se duas comadres estivessem de papo entre si, observados por uma roda. É o uso de um hábito antigo, o chamado serão, transplantado de maneira equivocada para o noticiário. É mais um passo para romper com o autismo do esquema, pois até alguns meses atrás, eles falavam entre si e deixavam o telespectador de fora. Fala Losekan. É com você, Bonner. Agora eles dizem “boa noite a todos”.

Foi aqui, no Diário da Fonte, que notamos essa tabelinha fechada entre a redação e o link. O cumprimento “a todos” resolve o impasse. É com o telespectador , agora incluído, que eles estão falando. Mas a compulsão de olhar para o (a) colega ao lado não funciona. Fica forçada e não tem base para existir, já que os dois sabem com antecedência tudo o que será dito. São coisas mal resolvidas que custam a ter uma solução. Mas às vezes eles conseguem avançar um pouco.

O bom exemplo vem do esporte. Felizmente nesta quarta-feira, quando o Cruzeiro enfrentou pela primeira vez o Estudiantes em La Plata, pela decisão da Libertadores, caiu a ficha dos jornalistas esportivos sobre um velho equívoco, a altura de quem cabeceia a gol. Acho que foi a chegada de mais um comentarista, além do Falcão, que repôs as coisas no lugar. Até ontem, era comum dizer que fulano levou vantagem no cabeceio porque era o mais alto da área. “Fulano tem um metro e noventa e dois”, diziam. Mas aí alguém, acho que o novo comentarista, falou em tempo da bola. Se o jogador chega no tempo da bola, não importa a altura do jogador, disse ele. O cara pode ser baixo ou alto, não importa. O que vale é se ele chega junto. Ufa. Custaram. Enfim decobriram que futebol não é basquete nem vôlei.

Para isso servimos nós, o não remunerados jornalistas da internet. Para chamar a atenção dos pesadelos da linguagem, dos equívocos da mídia e forçar, com a crítica, a correção. Ganham os tubos para permanecer no erro e mais ainda quando nos ouvem e mudam. Mas há ainda muita coisa pela frente. Por exemplo. Ontem disseram que todo time deve jogar dentro de sua característica. Ou seja, criaram uma camisa-de-força para a equipe e querem que ela se comporte conforme esse figurino. Não existe essa de característica. Ou o time tem bons jogadores e consegue agir em equipe, ou trava tudo e apela para as patadas, como aconteceu mais um vez com os argentinos em La Plata.

Eles se expressam às patadas. Faz parte de sua natureza. Colocaram um assassino para marcar Kleber. Mas saíram com o zero a zero, graças ao bom desempenho do Cruzeiro e as excepcionais defesas de Fabio. O que não precisava era o disco arranhado do Galvão Bueno, que, uma vez a cada segundo, milhares de vezes, disse que na próxima quarta-feira o Mineirão estará lotado, todo azul. O Galvão é isso mesmo, o chato obsessivo do monopólio da transmissão esportiva.

O destaque da noite foi, mais uma vez, Ronaldo, que fez três dos 4 a 2 do Corinthians contra o Fluminense. Naturalmente os comentaristas disseram de novo que ele está acima do peso e se afoba na hora de correr para o gol. Ronaldo está com o peso que tem e é um estrategista da corrida e do toque de bola. Faz tudo certo, com suas tesouradas, deslocamentos e uso simultâneos de todas as partes das duas pernas para driblar e chutar. Ronaldo é cracaço, não precisa de ninguém dizer que ele é gordo ou afobado. Ronald resolve os nós que enfrenta por meio do manejo da sua arte. Os jornalistas deveriam fazer o mesmo. Desatar dificuldades aprofundando a competência do ofício.

8 de Julho de 2009

Diário da Fonte
PLÁGIO NA TELEVISÃO: FUROS DA DRAMATURGIA


Nei Duclós

Os vazios dramatúrgicos empurram a Globo para plágios sucessivos. Sem criar soluções próprias, o uso excessivo do que deveria ser citação passa a ser simplesmente cópia. Vamos ver porquê.

O problema das novelas e mini-séries da Globo não é porque seus autores, diretores e atores trabalham com caricaturas ou situações repetidas à exaustão. A caricatura, a persona artificial da arte que é uma síntese, referência ou representação de pessoas reais, ou simplesmente existe apenas no território da ficção, faz parte do jogo. A solução dramatúrgica manjada muitas vezes é encantadora, depende de como se faz. O problema dessa gigantesca indústria que existe para veicular anúncios e manter a audiência do monopólio – dar emprego para a classe artística é apenas uma conseqüência, talvez uma seqüela – são os vazios de cada obra. Explico melhor.

A vilã interpretada por Letícia Sabatella, por exemplo, em Caminho das Índias, a novela das nove. Ela se compraz na sacanagem, na manipulação das pessoas, mas isso só existe porque há todo um entorno de personagens e diálogos sofríveis que servem como escada para sua performance. É lastimável a ingenuidade dos outros diante dos lances da bandida. O vazio a que me refiro é o seguinte: não é o impacto da cama-de-gato promovida por ela, não é sua esperteza que está na tela. É, antes, a falsa hegemonia gerada pela fraca intensidade do seu entorno. Os outros praticamente tiram o time de campo, ou criam todas as facilidades para que Letícia faça o estrago.

Ocorre o mesmo num dos casais de Caras & Bocas, a novela das sete. A excessiva credulidade da ex-proprietária de galeria que está grávida do seu amor, o pintor, mas não sabe, e acha que o pai da criança é o mau elemento que vive com ela, serviria para facilitar o desdobramento da trama. Mas como não há preocupação em tratar a personagem com um mínimo de competência, então tudo se faz para que ela caia em todas as armadilhas e continue suspirando de emoção. Deveriam fazer com que ela fosse uma pessoa íntegra, inteligente e uma talentosa profissional do mercado da arte e, portanto, apta para enfrentar as barras da maldade. Mas ela é esvaziada de todo o poder para que o traidor possa agir á vontade. Esse é mais um vazio dramatúrgico. Não existe cacife dos autores para criar algo melhor, então se apela para a obviedade.

O álibi é o slogan “é assim que o povo gosta”. Mas é um álibi furado. Não se trata aqui de condenar a novela brasileira, que, todos sabem, é uma droga. Mas de entender qual a conseqüência dessa série de vazios instalados nos programas. Minha percepção aponta para esse vazio como causa principal dos plágios.

A estréia, nesta terça-feira, de Som e Fúria, a mini-série dirigida por Fernando Meirelles, exibe vazios ainda mais lancinantes. Normalmente, esses folhetins veiculados em altas horas servem para a rede experimentar algumas soluções novas, que depois são usadas até o osso no resto da programação. Seria a fórmula perfeita para renovar, sair da arapuca. Mas isso não acontece.

Som e fúria é tirada de uma peça de Shakespeare, expressão usada mais tarde por William Faulkner para título de um romance famoso. A Globo prefere citar apenas Shakespeare. Ou seja, se Faulkner pode, por que não a Globo? Mas isso não importa. Vale dizer que alguns atores principais são todos marginais ao sistema. Começa por Felipe Camargo, no papel do diretor problemático, papel condizente com sua insubmissão real, já que é uma ator que teve mil problemas e acabou sendo afastado. Volta fazendo auto-crítica no Fantástico (sem o tom de autocrítica, claro, mas de balanço de vida, tão usada na grade, como acontece com os quadros chorosos do Faustão).

Ourtra personalidade é Regina Casé, que estava fora por um tempo e voltou num quadro ótimo no Fantástico e gora faz o papel da esposa de um executivo do teatro. E tem também a Andrea Beltrão, exausta da sua Marilda, caricatura bem sucedida de perua do subúrbio em A Grande Família. Ou Wandi Doratiotto, que usa os mesmos recursos (gestos e tons de fala) a campanha publicitária que faz aqui, dos supermercados Imperatriz. São todos atores outsiders que entram numa experiência que poderia ser inovadora.

Mas eis que o vazio está presente. Mostrar o teatro brasileiro fundado no cânone Shakespeare (a narrativa gira em torno de Hamlet) e não em autores mais presentes e importantes, como Nelson Rodrigues, ou mesmo autores russos, como Tchecov, tão fundamentais na história teatral brasileira, abre espaço para que a trama brinque de produção britânica ou americana. Mirelles diz que quer popularizar Shakespeare e que se baseou numa série canadense sobre o mesmo tema, Slings and Arrows (o álibi da citação). Por que não fez algo próprio? Por que estamos sempre colados nos outros? O que não foi dito, pelo menos não vi, é o plágio escrachado da cultuada e premiada série A sete palmos, em que o defunto reaparece o tempo todo para orientar seu sucessor.

Mas Meirelles é mais competente e sutil. Pode-se esperar algumas surpresas, apesar de ter lançado mão de soluções conhecidas e ter descaracterizado a vida teatral brasileira, que no seu seriado gira em torno do bardo inglês. Mas tem casos mais graves, como o de Walcyr Carrasco e Jorge Fernando, que em Caras & Bocas copiaram descaradamente o final do filme Miss Sunshine, onde uma menina participa de um concurso de miss mirim. Como no filme, ela faz uma performance considerada ousada, fora do padrão infantil, e causa um escândalo. As cenas são idênticas. A diferença é que, na novela, a garota é negra.

O resultado desse rolo todo é a desmoralização da cultura. Quem pinta os quadros de vanguarda em Caras & bocas é o macaco (foto). Atores e atrizes são todos uns desvairados. Enquanto isso, a televisão brasileira, pelo menos as grandes redes, continuam exibindo índice zero de programas culturais.

RETORNO - Posso falar de novela, já que escrevo exaustivamente sobre cinema, principalmente sobre grandes clássicos ocultos. E também posso criticar Fernando Meirelles, já que até agora só elogiei, como pode ser visto aqui e aqui. E televisão tem sido um tema várias vezes analisado neste jornal. Ultimamente eu tinha dado um tempo, mas voltei.

7 de Julho de 2009

Diário da Fonte
CONSENSO


Nei Duclós (*)

As palavras são expulsas de seus significados originais ou embaladas para prestar novos serviços. “Conteúdo”, por exemplo. Dez anos atrás era água num copo, agora é nota sobre celebridade. “Consenso” virou moda quando a ditadura precisou se consolidar depois de vários estragos. Os maganos se uniram e criaram o centrão de direita, que atropelou a emenda das Diretas Já e empossou no Planalto o atual presidente do Senado.

Hoje, o conteúdo do consenso é a chamada democracia, a que viveu à sombra da especulação financeira até o mercado explodir e ser chamado de bolha. Dois comediantes ingleses, em vídeo espalhado pela rede, mostram como se faz uma crise. Basta empacotar mentiras, vender por um bilhão de dólares e depois exigir ressarcimento por perdas e danos. Contra isso nenhum poder “democrata” foi contra. Ao contrário.

Quando um presidente pretende se perpetuar no cargo e para isso compra os congressistas ou convoca um plebiscito ilegal, é de se perguntar se essa democracia cevada no império da ciranda financeira não estaria revertendo o uso das palavras por puro interesse. É um trabalho possível, já que na indústria cultural visível (e patrocinada) foi erradicado o desmascaramento do sistema. É lei: humorista de TV se veste de mulherzinha, ponto.

Rir do poder era a forma de manter saudável a mente da cidadania expurgada de direitos básicos. O escracho e a crítica política, que tomam conta de milhões de espaços criados na internet, não chegam ao osso do sistema por excesso de dispersão. Permanece assim intacto o voto manipulado pelo marketing milionário e o rodízio de duas forças políticas idênticas, mas aparentemente antagônicas. Quando vemos ex-adversários de campanhas gargalhando juntos nos palácios republicanos, perguntamos por que nos submetemos ao novo voto de cabresto, o voto útil.

Para manobrar consciências, é convocada a antiga divisão legislativa, em que a situação ficava à direita e a oposição à esquerda. Levantar a hipótese de que estamos sendo manipulados por palavras soa como a verdadeira ingenuidade. Fica mais cômodo ceder à indiferença e deixar como está. As palavras acabam prisioneiras dessas caricaturas que ocupam o noticiário distorcendo tudo, para que saiam vencedores e se mantenham à tona até o final dos tempos.

RETORNO - 1. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 7 de julho de 2009, no cadderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem desta edição: Diretas Já. Substitui a outra que estava no lugar e que poluía o visual do Diário da Fonte. Este é um jornal família.

6 de Julho de 2009

Diário da Fonte
MICHAEL JACKSON E A INFÂNCIA REINVENTADA


Nei Duclós

Michael Jackson foi maltratado pelo pai na infância, que o transformou em escravo – como era costume tanto em Indiana, onde MJ nasceu, como no Brasil, onde era permitida a compra da alforria por meio das atividades comerciais, entre elas a de vender a força de trabalho alheia, inclusive dos filhos, a maioria paridos para esse objetivo. Quando conseguiu a independência financeira – principalmente depois de se transformar em vampiro e morto-vivo em Thriller - foi na Wacko, a megastore de quinquilharias de Los Angeles, comprar uma infância de criança branca. E a instalou na nação imaginária, Neverland, tirada da Disney, que por sua vez tirou da literatura britânica, povoada apenas por crianças como ele.

Sua arte é originada pela dança dos escravos que entretinham seus senhores dando passos em troca de uns trocados. Evoluiu para uma sintonia com a própria raça e desprendeu-se dela a partir do mega-sucesso. O que ele desenvolveu nessa trajetória adquiriu forma própria, uma identidade visual poderosa, desenhada por uma coreografia rica em detalhes, que descobriu no corpo novas formas e movimentos. Instaurou o ritmo de uma nova mímica, inspirada nos efeitos da velha luz estroboscópica das danceterias, em que o olho enxerga apenas trechos da evolução, fazendo com que a mente do espectador carregue uma performance composta de síncopes, como se a vida fosse um conjunto de saltos.

Com sua arte refinada, MJ é a representação de uma sociedade que se desvencilhou de suas raízes. Idolatrado por libertar as massas para uma série de gestos inéditos, apropriados para o uso em ambientes virtuais, MJ inventou a chance de refazer a própria vida, recomeçando da infância, que, com o apoio de seu faturamento extraordinário, deveria ser oposta à que ele sofreu. No fundo, não teve infância, ou ela estava ligada à dor e às algemas seculares do povo a qual pertencia. Livrar-se da canga por meio da plástica, de uma nova pele e de uma voz que se transformou apenas num falsete, cabia perfeitamente no mesmo diapasão da obra que impressionou o mundo.

Pode-se dizer que MJ tornou-se criança ao atingir o ápice de sua arte adulta, num movimento cíclico que o devolveu para emoções imaginadas e jamais vividas, como o fato de ter tempo e uma série de amigos para desperdiçá-lo. Claro que todo esse projeto se esfacelou diante da barreira imposta pela indústria que se alimentava dele. Para continuar a explorar ao máximo a dança, era preciso cobrir de infâmia o dançarino, que atrapalhava os negócios. A falta de estrutura para aguentar a transformação que o colocou numa sinuca de bico, tornou MJ refém das armadilhas mortais da sociedade do espetáculo, que cavou o fosso do ídolo para depois cobrar ingressos nos funerais.

O pai de MJ é apenas o sintoma dessa doença que consome o mundo e não dá vez para os devaneios, os sonhos, a alegria e o prazer acompanharem a obra de arte. Essas coisas humanas não podem ficar próximas demais, reais demais, perigosas demais. Deve-se eliminar a fonte para que a casca vazia brilhe sobre os escombros, que nutre os vampiros.

Toda arte é denúncia, mesmo em MJ. Ele nos alertou para a possibilidade de uma nova maneira de palmilhar o mundo, em que podemos iludir os espectadores negaceando a direção do nosso passo, fazendo das mudanças de direção um projeto de vida, e tocando partes esquecidas do corpo. Trazendo para a superfície o que nos incomoda e seduzindo pela graça o olhar exausto de tantas crueldades.

Pena que a gente só descubra essas coisas fundamentais depois que o gênio parte. É quando nos dedicamos a decifrar o presente que nos foi dado e que, muitas vezes, esnobamos porque não compreendemos. Ele risca o céu como um meteoro e nos desperta no meio da noite. Ouvimos então o som das esferas, que aos poucos se extingue como um pálido círio na nave da catedral assombrada de um conto de fadas.

RETORNO - ANTENOR NASCIMENTO SOBRE O REFÚGIO DO PRÍNCIPE

Meu colega da Istoé do final dos anos 80, Antenor Nascimento, um dos grandes textos da imprensa brasileira, leu meu livro de contos e crônicas “O Refúgio do Príncipe – Histórias Sopradas pelo Vento”. E escreveu o seguinte texto, que já faz parte das jóias da minha curta, mas significativa fortuna crítica:

“Caro: Acabei de ler O Refúgio do Príncipe. Não sou crítico literário e não vou falar do texto, que é uma maravilha. E mais, diferente de tudo o que eu conheço (o que eu conheço dos escritores mais modernos é um articialismo e um excesso de elaboração difíceis de tragar). Vou usar apenas a percepção de um leitor comum. O que eu senti, ao longo de todo o livro, é uma espécie de doce melancolia. Não pense mal de mim -- não sou masoquista -- mas é uma melancolia que agrada. Sabe? À medida em que eu ia lendo, também eu comecei a viajar pela região da memória. E lembrei de coisas que, Deus do céu, havia décadas que eu não lembrava. Como naquele texto em que você narra a pescaria noturna com o seu pai. Cacete! Eu também pesquei com o meu, no Rio Paraíba, também de noite. Isso foi há mais de quarenta anos. E acabei me lembrando até de detalhes daquela pescaria. E tantas coisas mais. Os personagens são ótimos. Gostei principalmente do vigia do mar e da ascensorista que lê clandestinamente. A gente costuma sobrevoar as pessoas. Não presta atenção. Não as vê. Mas você faz isso, e descobre um romance em cada um.
É isso. Li seu livro e fiquei diferente.
Um grande abraço.”

Antenor adquiriu um exemplar autografado do Refúgio, como muitos outros leitores. Faça como eles. Envie um e-mail para neiduclos@hotmail.com solicitando um. É só vinte reais. Um gesto para o escriba veterano, que vive do que publica.

Diário da Fonte
VAMOS EMBORA, ANDAR


Nei Duclós

Minha geração se despede, depois de mais de meio século de brutalidades. Fomos criados pelos sertões de Euclides da Cunha e de Guimarães Rosa, mas vemos na TV o rally dos sertões, inspirado no Paris-Dakar, aquele que cruza o deserto. Rodando a 200 por hora nas estradinhas de terra, os desportistas também andam no deserto. Não há mais ninguém nos sertões. Há o povo, mas isso não conta, é como uma miragem, um cacto. Não passa de poeira aquilo que foi descoberto como tragédia pelo engenheiro-repórter de Canudos, assassinado por um desafeto. E como antropologia mítica e narrativa épica, na arqueologia da linguagem projetada para o futuro, pelo diplomata, enfartado depois de assumir a cadeira de Machado de Assis, seu ídolo, na Academia Brasileira de Letras.

Há emoção no rally dos sertões. Pilôtas que tiveram seu carro incendiado numa curva se abraçam e choram, posando para o ar condoído do casal de apresentadores. São emitidos gritinhos de iuhúú pela adrenalina gerada em tantas aventuras pelo ermo, o país do povo deserdado. Duvido que esses carrões envenenados não matem meia dúzia nas corridas insanas pelo caminho. Mas povo é como esquilo, morre cruzando um brete e nem sequer é filmado pelas câmaras feéricas. Lembro um dia que um dos participantes voou com sua máquina para cima de um telhado de pobre. Isso deve acontecer durante todo o trajeto, mas ninguém fica sabendo.

Mas quem se importa? O rally dos sertões é a celebração da indiferença, a busca de glória a qualquer custo. Diferente daquele outro raid pelo interiorzão brasileiro de 1924 a 1927, a coluna Miguel Costa-Prestes que, segundo um dos seus líderes, Juarez Távora, em suas imprescindíveis memórias (“Uma vida e muitas lutas”) também se opunha ao que tentava salvar, o povo. Era difícil para o pobrerio nos descampados e vilarejos ter de alimentar mil homens e seus milhares de cavalos, em luta contra a presidência de Arthur Bernardes. Não é por nada que não teve apoio popular direto, com algumas exceções, diz Távora. Quando virou mito, foi aclamado, mas pelas populações urbanas, longe das armas e dos cavalos.

Minha geração desperdiçou o tempo tentando mudar o mundo. Deveria ter deixado como estava. Ou então, escutar Hendrix e não contar para ninguém. Ver Godard e se acostumar ao cinema vazio. Escrever e guardar. Pintar para as nuvens, ficar anônimo no litoral. O resto guardaríamos como lembrança que vale a pena. Nat King Cole cantando em espanhol. Frank Sinatra o tempo todo. Andar distraído nas tardes do Rio pelas mãos de Tom Jobim. Amanhecer com João Pacífico, morar no crepúsculo com João Gilberto, anoitecer com Vinícius. Rememorar o tempo em que dançávamos agarradinhos e ninguém cuspia nos fumantes. TV Tupi, TV Excelsior e o Correio da Manhã. Viagens pela Panair do Brasil.

Desperdiçamos o corpo e o tempo lutando por mudanças reais, mas elas não dependem de nós, senão a juventude de hoje não estaria gritando “fora, súcia”. Sempre fomos espectadores do caos que rola pelas esferas, jamais protagonistas. Não lutaríamos em vão contra a hecatombe dos tempos. Seríamos insubmissos, mas ainda líricos. Leríamos a revista O Cruzeiro. E haveria sapateado nos musicais americanos. Repartiríamos o cabelo e ouviríamos guarânias e blues. As agulhas desceriam suavemente sobre os LPs com aquele chiado gostoso antes de os metais e os contrabaixos pontuarem vozes inesquecíveis.

E o melhor: não teríamos saudades. Não sofreríamos com o rally dos sertões. Pois acredito que tudo o que aconteceu conosco foi vingança contra nossa vontade de mudar o mundo. Queríamos o amor puro e verdadeiro, a revolução correta, o governo limpo, o povo alimentado e feliz. Colhemos ruinas de nossa pregação. Tivéssemos deixado quieto, a vingança do cosmo se manifestaria em grandes realizações. Pois tudo existe para nos contrariar.

Todos saberiam quem é Edu Lobo e cantaríamos em coro, em praça pública: vamos embora, andar, que a terra já secou, borandá. Ah, tempo, coração iluminado, me deixa sonhar com o resgate do que perdemos. Minha mãe à espera na calçada. Meu pai voltando da pescaria. Meus irmãos indo para a capital. Nós voltado para as aulas. E lá, no colégio, teríamos ainda a companhia do Gilberto Gick, que completaria 60 anos no ultimo dia 30 de junho, não fosse aquele tiro.

Vamos embora, andar. Missão cumprida, geração que falou alto demais e depois emudeceu. "Vam' borandá. Que é melhor partir lembrando, que ver tudo piorar".

RETORNO - No video do You Tube, que acompanha este texto,Edu Lobo, o maior compositor brasileiro vivo, canta Borandá, de sua lavra, acompanhado pelo Tamba Trio, o som sofisticado de um grupo na época em que tínhamos música popular. E tínhamos música por existiam artistas criados no Brasil Soberano (1930-1964) em luta desarmada contra o nefasto regime de 1964, ainda em vigor.

4 de Julho de 2009

Diário da Fonte
COMO ENSINAR


Nei Duclós

O governo vai colocar nas escolas milhares de exemplares de um manual para ensinar professor a ensinar. Como considero isso um abuso, pois bastaria criar um blog sobre o assunto que sairia tudo quase de graça – bastaria pagar o autor do chamado conteúdo – resolvi meter a colher no assunto. Não, não vou “disponilizar” nada para “alavancar” carreiras. Vou dizer apenas como se deve fazer para desasnar os alunos.

É muito simples. Primeiro, exija postura. Se o cara quiser conforto, que vá para o sofá da casa dele ou volte para a cama. Aprender exige atitude asceta, ou seja, espinha ereta, assento duro e olhar fixo no professor. Os alunos, antes de começar a aula devem aprender a esvaziar a mente, pois chegam de casa ou da rua cheios de merda na cabeça. O começo de cada aula deve ser dedicado a tirar o lixo do cérebro. Como fazer isso? Peça, ou exija, que as garotas parem de pensar na condição feminina, os garotos, de querer assediar as colegas, os pequenos de dar um pau nos grandes, e os marmanjos desistam de mastigar porcarias enquanto o professor fala.

É fundamental que a atitude de professores e alunos em sala de aula seja quase religioso. Basta eliminar a cabeça baixa ou o ajoelhar no milho, o resto funciona. Não que o professor seja um santo, sabemos muito bem o que fazem alguns adultos no meio da moçada. Mas é necessário uma concentração litúrgica para tirar proveito de uma aula. Para que o aprendizado aconteça, porém, não basta fazer contrição. O professor tem de ser um erudito na matéria. Ou seja, que saiba como provar graficamente, como faziam os antigos, a evidência do teorema de Pitágoras. Que diga no primeiro minuto de trabalho que toda a trigonometria se baseia na convenção de que o raio de uma circunferência vale 1.

Erudição é saber os fundamentos de uma matéria. Se morar aqui na ilha, tão metida a açoriana (quando no fundo é mais indígena, em suas origens, do que outra coisa), precisa saber que açor significa ave de rapina, gavião. O excesso desse tipo de ave definiu o nome do arquipélago, descoberto por um flamengo (não um flamenguista, mas um holandês) e apropriado pelos portugueses (o flamengo aportou antes em Lisboa e contou para todo mundo). Se for falar de poesia, explique para a macacada que a nobre arte nada tem a ver com trocadalhos do carilho, nem com palavrinhas soltas a esmo, nem versinhos pífios, nem sacadinhas bestas, nem riminhas espertas. Poesia, diga para eles, é intensidade absoluta da linguagem, que carrega não apenas a filosofia, mas a História, a Arte, a Antropologia. Para ser poeta, impõe-se, além da vocação, o estudo exagerado e ininterrupto.

Não vá fazer como o Chico Buarque que na Flip confessou que escrever é uma chatice. Ver o Chico tomar conta do noticiário literário é que é uma chatice. Ou então ler que, por ter sido criado em casa de historiador, sabe muita coisa de bastidores da História do Brasil. Faça como as pessoas sensatas e vai ler o pai do Chico, o gênio absoluto, Sergio Buarque de Holanda, coisa que o Chico não faz mais. Deve ter lido o Raízes do Brasil, mas esquecido Monções, Caminhos e Fronteiras, Do Império à República. Acho que nem o Livro de Prefácios, que contém magistral ensaio sobre Ranke, o pai da historiografia moderna.

Para você ensinar qualquer coisa, tem que ler todo o Sergio Buarque de Holanda, senão você pastará na mais bruta ignorância. O que define o estado civilizatório de uma pessoa é o fato de ter lido ou não Visões do Paraíso, de SBH, a maior obra da erudição nacional, em que cada capítulo vale por um livro. Leia você, porque esse negócio de mandar os alunos ler é perda de tempo. Ninguém lê. Todos estão grudados em seus brinquedinhos eletrônicos, passando esmalte nas unhas ou atribuindo a Shakespeare coisas que ele nunca escreveu. A falsa cultura domina tudo, desde as materinhas espertas da TV até os blogs de quase todos os matizes.

Para ensinar, é preciso pegar pesado. Não espere políticas públicas, os políticos pensam em outra coisa. Não permita que cheguem atrasado, faça ditado de textos intrincados, obrigue todo mundo a falar em público, reprove coletivamente (zero geral), deboche da burrice e da pretensão, não tema retaliações nem ameaças físicas, não deixe interromper a toda hora de maneira inútil. Tenha coragem, preparo e fôlego. Não vá ler manuaizinhos espalhados pelo governo, que assim você não vai aprender a ensinar.

Aprenda a ensinar se transformando no Monstro da Lagoa Negra. Aquela criatura disforme e execrável que assusta os alunos e que será amada como a pessoa mais importante sobre a terra, depois que a aula, o semestre, o ano letivo, o século e o mundo acabar. Você será visto como o Cruzeiro do Sul, a Estrela Polar, Andromeda. Navegarás na memória como um cometa viajando para os confins do nada, lá onde te espera Deus, de livro na mão, pronto para te tomar a tabuada.

RETORNO - Imagem desta edição: o Monstro da Lagoa Negra. Quem tem mais cem mil anos, como eu, sabe do que se trata. Personagem de filmes dos antigos matinês. Quem é moço, recorra ao google.

3 de Julho de 2009

Diário da Fonte
PLANO


Nei Duclós

Revolução prega ditadura
Democracia prega revolução
Ditadura prega democracia

Pregos nas mãos da cidadania
Provas da irresistível ideologia
Parto de uma velhíssima situação

Em nome da liberdade se anuncia
Uma impraticável onda de prisões
Salvo conduto em plena guerra fria

Pilhas de leis que se depositam
Nos prédios abandonados da razão
Lá mora a moral que se definha

Púlpitos surdos agora se acumulam
Em caixotes a favor da redenção
Alto falantes da dor e a mordomia

Já batemos lata nessa vilania
Fomos o dedo em riste no porão
Tempo do vulcão virando cinza

Enterramos a idéia nas idades
Sem fôlego a memória temporã
Bandeiras dando banda muito tarde

Prego a palavra sem catatonia
O verbo conjugado no verão
Clara comunhão de especiarias

2 de Julho de 2009

Diário da Fonte
OSMAR TRINDADE, DA PLATÉIA DE LIVRAMENTO


Nei Duclós

Tem morrido jornalista demais e quando soube, pelo Geraldo Hasse, que o Osmar Trindade tinha ido embora ao 72 anos, vítima de câncer, resolvi esperar um pouco, ver o que diziam dele, para só depois resgatar um pouco do que sei. Vi, alarmado, que todos falam de sua brilhante carreira, como fundador do Coojornal, a cooperativa que fez História; como ganhador de prêmio Esso, como exilado pela ditadura em Moçambique, na África, mas ninguém lembrou que ele começou na Platéia de Livramento, o veterano jornal da fronteira gaúcha. Lembram que ele nasceu lá, mas não que já era jornalista do pequeno burgo antes de se destacar nacionalmente. Foi lá que conheci o Trindade, que na época tinha uns 32 anos, já que eu dispunha de apenas vinte, e hoje estou com 60.

Fiquei com esperança de que a própria Platéia inserisse esse dado na matéria, mas, pasmem, nem a própria Platéia sabe que Osmar Trindade passou a mais importante parte da sua vida adulta lá. É de lascar. Enterramos o país defunto enquanto ainda ele respira! Esquecer um dado desses seria para nossos descendentes, lá pelo ano três mil. Agora, no calor da hora, achar que o jornalista Trindade brotou em Porto Alegre diz tudo não apenas sobre nosso assassinato da memória, mas da nação toda.

Foi assim. Eu viajava para Montevidéu em 1969 ou 70, não lembro. Até Santa Maria, fui com Marco Celso Viola, depois me mandei sozinho para a fronteira. Ao chegar em Livramento, fiquei esperando o resto da macacada, uns hippies que eu tinha conhecido e que no fim ficaram lá por Santa Maria mesmo, pois fizeram o maior sucesso com seus artesanatos, músicas e comportamentos. Eu me quedei só, cabeludo, na chuva e quase sem dinheiro. Foi então que resolvi passar pela Platéia, que eu conhecia à distância e admirava que um jornal sobrevivesse na região por tanto tempo. Naquela época, Uruguaiana, minha terra, não tinha mais jornais como antes. Só depois, nos anos 80, é que essa tradição voltou à minha cidade.

Na redação, conheci o Osmar Trindade. “Era um gaúcho quieto, pelo-duro de olhos azuis”, como me disse o Geraldo Hasse por e-mail. Contei que eu fazia parte de um grupo de estudantes portoalegrenses que estava indo para Montevidéu numa viagem de reconhecimento e cultura, difundindo arte e poesia. Na nota que fez sobre a conversa, Trindade nos chamou, afetivamente, de “gente idealista”, uma “metáfora muy fina naqueles tempos bicudos”, como me disse o Hasse. É verdade. Idealismo nos livrava da condenação de sermos tachados de subversivos. Éramos pelo ideal, não pela revolta. Trindade assim nos preservava, tão expostos que estávamos, sem saber do perigo que corríamos.

Acabei voltando para Portinho, depois de amargar uma cana de um dia. Quase fui levado para o quartel. Tive sorte, pois o oficial S2 (mais tarde descobri que era o encarregado dos interrogatórios) não estava no momento. Fui expulso da cidade por motivos pífios. Talvez porque eu fosse estudante, era pleno ano letivo e meu cabelo arrastava no chão. Eu usava uns coturnos de milico (presente do meu cunhado capitão), roupa rasgada, calça imunda. Deve ter sido isso.

Anos mais tarde, Trindade aportou em Portinho e não tinha onde ficar. Recebi-o em minha república, na Coronel Bordini, Auxiliadora. Ele ficou dez dias. Na saída, me disse:
- Como é do meu feitio, nem vou te agradecer.
Custei alguns minutos para entender que nós, homens da fronteira, nos dizemos as maiores barbaridades só para que a amizade não pareça uma coisa babaca.

Depois, trabalhei com ele na Folha da Manhã. Eu era copy e ele chefe lá. Parece que a gente teve umas rusgas. Acabou tudo como sempre, num enorme passaralho, que me levou embora para São Paulo e ao Osmar, para o Coojornal e depois para a África.

Foi enterrado por cem pessoas que compareceram aos funerais. A maioria jornalista. Como disse Elmar Bones, o Bicudo, da mesma linhagem dos combatentes de Livramento, citado pelo Hasse: "O Trindade era uma bandeira desse jornalismo que se estiola nas dobras do neoliberalismo...Sua morte deve pelo menos servir para retemperar os brios dos que ainda restam..."

Osmar Trindade, jornalista brasileiro, presente. Da Platéia de Livramento para o mundo. E daqui para a memória, chama que não deve se extinguir nos nossos braços ainda no front.

RETORNO - Imagem desta edição: foto de Daniel de Andrade.

DOIS DEPOIMENTOS EM TORNO DE OSMAR TRINDADE

Paulo de Tarso Riccordi : “ No auge da Rádio Continental achei que estava na hora de fazer jornalismo "a sério" e fui bater na Folha da Manhã. Procurei pelo Bicudo e pedi emprego. Perguntou-me o que gostaria de fazer. Tudo - respondi -, menos Polícia e Esporte. Ele apontou para um índio de olhos azuis, adiente, e disse-me: amanhã te apresenta àquele cara. Dia seguinte cheguei cedo e o Trindade (era o índio) me deu a pauta: o julgamento do Camisa Preta, "um bandidaço", informou.

Descobri, então, que iria trabalhar na editoria de Polícia... onde aprendi com ele a olhar atentamente para as pessoas que fazem e sofrem os fatos. O traço new journalism da Folhinha era impulsionado por esse gaúcho de Livramento, que foi tropeiro com seu pai e irmãos, generoso e bondoso com todo mundo, com quem era impossível brigar, que sempre encontrava um lado divertido em qualquer desgraça, sempre de olho nas pessoas que as viviam, e nos incentivava a escrever sobre isso.
Que baita editor! que baita professor! que baita amigo tivemos!

Minha faculdade de jornalismo foi cursada de madrugada na Itabira, a churrascaria do sogro do Kenny Braga, onde lecionavam os meninos criados n'A Platéia de Livramento: Trindade, Bicudo, Kenny, Ucha. Dezenas e dezenas de pautam foram produzidas ali, quando se fazia jornalismo com repórteres na rua e na estrada.

Do Bicudo, o melhor que conheço, recebemos a melhor técnica que se pode esperar em jornalismo. Do Trindade, o enfoque, a humanidade, a generosidade... e a literatura. E pensar que a última vez que nos falamos foi em nossa única briga (na ronha da Coojornal e do nosso Sindicato, fins dos anos 70). E, mesmo aí, mandou um recado por minha esposa de então: "tenho que dizer uma coisas ao Tarso e ele tem que dizer uma coisas pra mim". É muita delicadeza para um guri que na época era muito brigão e grosseiro até com os amigos.”

Marlon Asseff: “Nos meses que se seguiram ao golpe, A Platéia continuou mantendo uma linha editorial de indignação com os rumos do novo governo, publicando artigos de jornalistas do centro do país, que criticavam sistematicamente a quebra da ordem constituicional. Toscano Barbosa constantemente mandava transcrever a coluna de Carlos Heitor Cony, do carioca Correio da Manhã, para publicar na primeira página do jornal. Caso achasse o texto um pouco recatado, pedia a Kenny Braga que reescrevesse partes do texto e adaptasse à linha política do jornal.

Ele mandava esquentar. Uma vez contei isso pro Cony aqui, anos depois e ele morria de rir. Uma vez o Toscano não gostou do capítulo final. Disse: "Seu Kenny, modifica isso aqui! Isso aqui não tá bem aqui, muda o parágrafo". Eu quis argumentar, mas Toscano, a coluna é do cara, e tá assinado[...]"Mas o jornal é meu!" Bom, aí me matou, e eu mudei o final da coluna. O Toscano seguidamente ia preso, para Segunda Divisão de Cavalaria, em Uruguaiana. E o motivo é que esses oficiais de fronteira estavam muitas vezes acima da lei, estavam acima da constituição. Então o cara lia uma notícia no jornal e não gostavam do que liam e mandavam apreender a edição inteira do jornal, como aconteceu uma vez em Rosário. E o Toscano ficava indignado. [...] E ele até me dizia assim: "Pau nesse crápula seu Kenny, pau nesse crápula!""

Diário da Fonte
POVO CONTRA POVO NO BEIRA-RIO


Nei Duclós

Procuro o que ler sobre a decisão da Copa do Brasil entre Internacional e Corinthians, nesta quarta-feira, no Beira-Rio em Porto Alegre, e não encontro. O festival de abobrinhas e falta de informação praticamente empurra o Diário da Fonte para mais uma edição sobre futebol. O nheco-nheco da mídia esquece de dizer algo mais proveitoso do que os 2 a 2 da partida, resultado que deu ao Corinthians o título, pois na partida anterior, no Pacaembu, tinha vencido de 2 a zero. Ou que Jorge Henrique e André Santos marcaram para os paulistas, enquanto Alecsandro fez os dois dos gaúchos

Estão mais preocupados com estatísticas, em quantas vezes levantaram a mesma taça, entre outras bobagens. As referências ao passado devem ser de outra qualidade, longe das estatísticas, que nada dizem. E o que deve ser destacado não é a obviedade do que vimos na tela, mas alguns elementos fundamentais do jogo, que foi excelente até o evento que trouxe sangue ao gramado. Preciso avisar, nesta altura de fim de campeonato: uso a palavra sangue em sentido figurado. Sangue significa briga feia. Dito isso, vamos ao que interessa.

O Colorado e o Timão vieram de longe, são times gerados pelo Brasil soberano e tem suas imagens vinculadas ao que chamamos povo, palavra complicada entre nós, mas não deveria ser assim. Povo quer dizer povo mesmo, gente, pessoas de uma nação, e não gentinha, gentalha, pobrerio, escravatura. O povo em preto e branco e o povo que veste vermelho são, ambos, brasileiros, e expressam sua euforia de pertencer a algo maior do que suas vidas limitadas. Algo capaz de dar essa alegria imensa que é a conquista de um campeonato de futebol, o esporte praticado por espíritos livres.

Encerrada a peleja, resta ao jornalismo descobrir porque o jogo teve aquele desenlace depois de oferecer, a maior parte do tempo, exemplos brilhantes de desenvoltura e objetividade. E isso está ligado a algumas conquistas humanas, como a percepção de que a realidade extrapola as dimensões físicas. Ou a de que a invenção dos espaços é uma espécie de exercício quântico das equipes envolvidas na busca não apenas do gol, mas da glória.

Quando vemos o gramado com dois times em confronto num momento decisivo para a vida de milhões de pessoas, não devemos pensar em quantos metros quadrados ele ocupa na superfície terrestre. Não vamos lá com uma trena ou com o tira-teima eletrônico medir a quantidade de quilômetros que um jogador consegue correr para chegar ao objetivo. Nem devemos fazer estatísticas de posses de bola. Também não podemos confundir continuidade da jogada com insistência. Quando a bola volta ao atacante, ele não “insiste”, como dizem os comentaristas, ele simplesmente continua jogando. Isso faz parte da natureza do futebol, como não faz parte da natureza do futebol a massa corpórea ou a altura de um cabeceador no miolo do vulcão, a pequena área. Jogadores baixos e magros são lisos e eficientes, não estão lá para praticar atletismo.

O futebol está em outros elementos. Por exemplo: cada time procurou estabelecer seu domínio por meio da minuciosa geração de espaços virtuais dentro do campo. É o seguinte: cavocar os milímetros de grama por meio de passes precisos, dribles que deslocam a posição dos adversários e criar triangulações sucessivas são caminhos para desencantar as amarras promovidas pela tensão, a irritação, a expectativa, o medo, as leis e a ansiedade. Isso me conquistou para o jogo de ontem (já que não tenho obrigação de ver futebol, só mantenho a sintonia se houver motivos). Sei o que disseram sobre a retranca corintiana ou a “insistência” colorada, mas isso não vem caso, é chato abordar o futebol dessa maneira. Os dois aspirantes ao título compuseram uma extensa trama, por meio de passes, toques mínimos, velocidade, arranques e ousadia, para definir o mando do jogo.

Funcionou. Nem sempre funciona. Vimos recentemente como as partidas podem ficar amarradas e insuportáveis de ver, como o Cruzeiro x Grêmio e Brasil x África do Sul, dois exemplos já citados aqui. O principal obstáculo é a percepção coletiva. Uma equipe é uma criatura, e assim é vista pela sua torcida. A pessoa que está na arquibancada tem olhos apenas para seu time. O futebol é muito complicado, você não pode enxergar a quantidade de lances promovidos pelo adversário na hora em que o teu time está avançando. Você enxerga, no máximo, o goleiro, e o zagueiro que consegue cortar a jogada ou derrubar alguém que arranca para o gol. Quando todos os jogadores em campo conseguem resolver os impasses, compartilhar vitórias e derrotas no meio do conflito, fica bonito de ver.

Os dois a zero do primeiro tempo, a cargo do Corinthians, parecia o mesmo do Brasil x EUA na decisão da Copa das Confederações. Ou seja, era possível virar. O Colorado conseguiu, a certa altura, chegar duas vezes à cidadela inimiga e aí veio a catimba. O Corinthians já estava escaldado por experiência anterior, com o Sport, quando deixou escapar a taça na final. Por isso não deixou barato. Para esfriar o ânimo do Internacional, Cristian caiu no gramado na hora de ser substituído. Isso deixou os colorados furiosos. Não deveriam ficar assim.

Se mantivessem a calma, poderiam imediatamente retomar o ritmo e chegar pelo menos ao 4 a 2, o que levaria aos pênaltis (N. da R.: não é bem assim; leia nos comentários). A fome de justiça pôs tudo a perder. Entraram na armadilha, perderam. Deveriam agir estrategicamente. Aguardar que o cara se levantasse. Mas a ansiedade, a ira fez com que os corpos incendiados pela decisão perdessem tempo num sururu ridículo. Esse desenlace não faz justiça ao jogo, mas faz parte de seu perfil. Fora de campo, criou-se um clima de fúria para o jogo, com ameaças de lado a lado. Acabou acontecendo, infelizmente.

Tem uma coisa: o Colorado deveria vestir vermelho em campo e não branco. O Internacional não é o Santos! Metade do carisma de um time está na camiseta. Você não pode abrir mão dela na hora agá.

Na luta de povo contra povo, ganhou o título a sofrida nação corintiana. Os colorados precisam se conformar. Lamber as feridas e não guardar ressentimentos. Ambos centenários, os times representam o que temos de melhor no futebol brasileiro. A briga coletiva foi a expressão de um país que ainda cai no conflito puro e simples, quando deveria fazer como no futebol, em que o confronto é ditado por regras e o gol, caminho para a glória, é a superação desses limites.

O gol é o vôo em direção à transcendência, quando enfim nos abraçamos com a glória ou nos preparamos para uma nova temporada de carga ligeira.

RETORNO - Imagem desta edição: Jorge Henrique (no centro, com Ronaldo à nossa direita) o grande destaque na final.

1 de Julho de 2009

Diário da Fonte
A MORTE SUSPEITA DO HOLOGRAMA


Nei Duclós

Zinter Barf, que morreu recentemente numa rua da capital, talvez seja um holograma criado em 2055 por Terz Boraquio, o grande revolucionário que reinventou esse tipo de criatura quando os clones físicos infestaram o planeta de sucata. Explico melhor: o excesso de escravos robóticos tinha sido gerado pelo esquema do mercado a qualquer custo e preço, como acontecia antigamente com os automóveis. Modelos cada vez mais sofisticados e descartáveis começaram a atulhar cidades e vilas. Houve então uma grande queima de estoque para evitar o caos.

Foi aí que surgiu o gênio ítalo-sérvio de Tersz Boraquio, que criou um tipo de holograma capaz de imitar à perfeição os robôs, fazer exatamente o que se exigia deles sem ocupar nenhum espaço, pois os seres atravessavam paredes e montanhas sem deixar vestígios, como se fossem neutrinos. O grande problema neste ano de 2099 é que os hologramas criaram uma sociedade secreta e estão aos poucos tomando o poder, decidindo o que vamos comer, ganhar e gastar. Isso cheira a teoria da conspiração, mas o fato é que uma dessas invenções acabou morrendo nem plena avenida. Dizem que até saiu sangue. Ou seja, os hologramas encontraram o segredo de virar gente.

Sei que vão me chamar de alarmista e mentiroso, leitor de velhas e manjadas ficções científicas, quando esse tipo de solução narrativa enchia páginas impressas de revistinhas mal afamadas. Mas aprendi que a imaginação, especialmente a descartável e datada, é o mais perigoso dos sinais. A verdade é que não havia registro do cidadão que esteve por horas estendido no chão. A polícia não conseguiu decifrar os códigos que trazia na caixinha preta do cinto. As imagens armazenadas ali também não eram esclarecedoras. Houve a suspeita de que se tratava de um combatente bizarro, desses que cruzam a galáxia em busca de trabalho e aventuras. Mas mesmo na Lua, na estação orbital alfandegária que o poder planetário mantem lá, não foi vislumbrado qualquer pista do sujeito. Sabemos disso porque temos um correspondente lá.

Quem viu que o cara passava mal foi uma criança, que carregava um prosaico balão vermelho e chupava um pirulito tradicional, comprado nesses lojas saudosistas que vivem relançando tralhas alimentícias do passado. O garoto ainda por cima usava um boné, como se estivesse saindo de uma gravura do início do século vinte. Ele começou a gritar quando viu a vítima se dobrar e cair. O que ele viu, contou. Mas parece que o relatório sumiu, pelo menos para nós, da Imprensa Virtual e Solidária. Nossa organização não tem poder para provar a fraude. Em compensação, soubemos de fontes de dentro da burocracia policial que vários veículos passaram por cima do defunto, sem que a carcaça desse qualquer sinal de estar sendo abalroada.

Ou seja, era mesmo um holograma. E como se explica o sangue? Parece que os líderes da organização secreta das novas criaturas inventaram várias artimanhas para se passar por humanos, expedientes muito mais sofisticados do que os antigos andróides. Uma delas é verter sangue por qualquer coisa. Isso daria credibilidade de que são reais. Soubemos de aspirantes a cargos importantes que, nos bastidores, se deixavam “ferir” e pediam ajuda para colocar um curativo no dedo. Isso fazia com que os testes sobre sua autenticidade fossem relaxados.

O fato é que o cara morreu, e verteu sangue. O problema é que a comprovação do tipo de sangue vertido desapareceu. Qual a hipótese mis provável? Mal súbito? Não me façam rir. Um holograma é para sempre e pode ostentar a eterna juventude por séculos. Talvez o doutor Boraquio tenha feito uma programação secreta de providenciar a morte das criaturas antes que eles fizessem como os robôs ou os andróides e se tornassem um incômodo. Previu talvez que poderiam se insubordinar até a insânia de tentar tomar o poder. E fez com que os caras, a certa altura, morressem.

O que acontece quando um holograma morre? Desaparece simplesmente? Negativo. Todos os seus registros estão gravados na Impregnação Total que domina hoje o planeta. Qualquer cidadão devidamente identificado pode acessar essas imagens e recuperar a vida inteira de quem quer que seja. Um holograma, como qualquer um de nós, permanece e talvez até ressuscite, vai saber o que esses técnicos loucos preparam. Quem sabe a nova organização secreta esteja fazendo um teste. No caso de alguém deles morrer, para onde vai o “corpo”?

Um amigo meu foi sugeriu que o cara em questão tenha sido assassinado de longe por um rifle de alta precisão. Argumentei que não existem mais rifles, apenas pixeles mortais, e estes estão armazenados pelo Governo Geral. Ele então esclareceu. Assim como existem lojas de antiguidades, há também casas que vedem armas antigas. Essas podem ser carregadas com cartuchos de ultimas geração, que podem até de matar hologramas à distância.

Como o assunto é de segurança interestelar, o evento foi abafado por uma série de apagões virtuais. Nossa imprensa, sempre atenta, é que soube do caso, pois um dos nossos repórteres estava mendigando perto do acontecimento. O jornalista amealhava alguns créditos de luz verde para tomar uns tragos num cafofo da moda, o Vai Muito da Pessoa Bar. Como se sabe, ninguém mais pode beber bebidas antigas pagando em moeda corrente. É preciso ter créditos corretos para se drogar.

Nosso jornalista estava quase conseguindo, pois havia uma convenção de Antigos Moradores das Ilhas Desaparecidas perto dali e os convencionais queriam se livrar dos créditos verdes, pois voltariam para ZY-Tri9, o planeta do momento, cada vez mais cheio de gente e poluído. Lá, não vale nada o crédito verde. Pois na hora em que se levantava para ir tomar umas birras e umas dose de bourbon no Vai Muito que ele viu o cara ser atingido na barriga. Viu a vítima se curvar e cair, mergulhada em sangue.

Imediatamente o repórter nos acionou, aqui na Central da Imprensa, mas não tivemos mais contato com ele. Identificamos o acidente, mas nada conseguimos de informação. Nosso problema agora não é solucionar o caso, mas resgatar o jornalista, que sumiu. Não foi encontrado no bar nem na sua casa. Um universo tão imenso, infinito e hostil guarda segredos terríveis e um deles é o paradeiro do nosso colega. Aquele que queria beber um pouco e acabou sendo testemunha de um crime.

Quem matou o holograma Zinter Barf e por quê? Essa é uma pergunta que vai ter de esperar. Outra se tornou mais urgente: onde está o repórter Birt Bogar? Mandem flops para a redação.

RETORNO - Imagem desta edição: obra de Edward Hopper, artista lembrado por Renzo Mora no seu cada vez mais imperdível blog. É ou não é o clima do Vai Muito da Pessoa Bar?

30 de Junho de 2009

Diário da Fonte
COMUNICAÇÃO


Nei Duclós (*)

Jornalismo era considerado um gênero literário. O que fazia parte do entorno do jornalismo – notícias, reclames, editais, avisos etc. – acabou em primeiro plano, deixando de lado a cobertura policial com suspense, o drama das grandes tragédias, as aventuras dos insubmissos, as memórias dos combatentes e a polêmica dos esgrimistas do verbo. O que era um nicho da literatura virou ciência humana e até mudou de nome: foi batizado de “comunicação”.

No final dos anos 60, a comunicação tomou conta das mentes. O carisma da nova onda era tão forte que não se circunscreveu aos humildes estudantes que optaram pela profissão porque “gostavam de escrever”. Atingiu faculdades de vanguarda como a arquitetura, onde se despejavam teorias evolucionistas da emergente aldeia global. Chacrinha tirou um sarro da moda, com o seu “quem não se comunica se trumbica”, imediatamente adotado pelos novos e tumultuados scholars. Há uma cena famosa em que Woody Allen, exausto da conversa do sujeito que estava na sua frente na fila do cinema, tirou, detrás de um painel, o próprio McLuhan, o papa intelectual da época, que contrariou tudo o que estava sendo dito de maneira definitiva.

Passada essa fase deslumbrada, a comunicação alcançou status de cânone, carregando embaixo do braço os estudos da linguagem a partir de Saussurre e passando pelo ralador do estruturalismo. Assim instrumentados, os conceitos da comunicação avançaram sobre o jornalismo, misturando-se aos vetores que se desenvolveram em áreas correlatas, como a publicidade. Era tudo uma questão de gosto, mas o sabor dos princípios recém descobertos acabou virando lei.

Para se consolidar, o paradigma vitorioso precisou inventar a história de que, antigamente, as redações eram um covil de românticos. Foi esquecido de propósito que, antes da febre, havia rigor pautado pelo talento e o aprendizado, que jamais dispensou a leitura dos grandes autores, era exercido na prática, no embate diário do caos da realidade, insumo para o texto inesquecível. Contar uma história ficou fazendo parte do passado, apesar de escritores como Hemingway e Garcia Marquez terem se formado nesse jornalismo que se foi, enterrado pelo brilho da mediocridade tornada enfim hegemônica.

RETORNO - 1. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 30 de junho de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem desta edição: o jovem Garcia Marquez, o escritor que saiu daquelas redações clássicas. Quais escritores de primeiro time foram gerados pela "comunicação"?

29 de Junho de 2009

Diário da Fonte
VITÓRIA DE NARVÁEZ E COMPLICAÇÃO EM HONDURAS


Nei Duclós

Não foi Francisco Narváez, definido como magnata, liberal e peronista dissidente, quem venceu as eleições legislativas na Argentina: foi o casal Kirchner que perdeu. Criei a manchete acima porque deverá ser a única neste dia com esse enfoque. A mídia estava toda concentrada nos Kirchner e deixaram de lado algo pouco importante, como o candidato da oposição. Esse assunto certamente será aprofundado nos próximos dias, mas por que não agora, hoje? Quem é realmente Narváez? Não me venham com links, devem ter inúmeros. Falo da mídia das primeiras ocorrências e dos grandes veículos, Clarin, de Buenos Aires, inclusive.

Deve ser ordem expressa dos manuais de redação, que ensina, de antemão, o que é e não é notícia (aquela asneira de morder o cachorro). Honduras, por exemplo, qual é a notícia? Golpe militar! dizem todos. Obedecem à lógica internacional das idéias prontas, a que sustenta o sistema econômico. Parece que foi contra-golpe. O presidente deposto estava a fim de se perpetuar no cargo e foi mexer logo com quem, com um general. Voltou atrás e se deu mal. Acabou nos braços do Chavez, que está louco por uma guerrinha, até que alguém lhe acerte as fuças de porquinho e ele então se cale para sempre.

Lembrei do marechal Lott que colocou tropa na rua em 1955 para garantir a posse de Juscelino Kubistchek, contra o continuísmo dos golpistas. Achei acertada a indicação do presidente do Congresso para ocupar interinamente a presidência e a convocação de eleições gerais em novembro. Posso estar enganado, pois as informações são escassas. Os jornalistas estão ocupados em repetir exaustivamente o Mesmo, para não haver o que eles consideram Erro. E é aí que erram. Gripe suína, por exemplo. Primeiro, houve um clima de blockbuster de tragédia global, com o planeta sendo invadido pelos Sete Macacos no Independence Day. Depois, alguém poderoso pediu para baixar a bola. Obedeceram.

Aí colocaram a doença no saco, quando então foi decretada a pandemia. O assunto voltou às manchetes, mas não com o mesmo furor. Ora, só mata quem pega, dizem, pouca coisa. Ora, 600 casos confirmados no Brasil, quem se importa? Parece a Lei Seca. Por uns dois meses, foi aquele furor de blitz, gente tomando água de coco na balada e bafômetros que tais. Logo em seguida, aquela preguiça. Um ano depois, a merda continua a mesma, porque a mídia faz campanhas obsessivas sobre pautas repetitivas e depois larga de mão. No seu excelente blog na veja.com, Augusto Nunes tem uma seção chamada O país quer saber, onde ele resgata um monte de barbaridades que foram deixadas de lado pela imprensa apressada.

Prevejo uma fase de endeusamento de Dunga, agora que ele provou a que veio. Dunga errou muito, mas acertou também, tanto é que sua campanha é vitoriosa. O problema não é gostar ou não, apoiar ou não o Dunga ou o Ricardo Teixeira, a CBF contra Kfouri e essas coisas. O problema é achar que alguns empates e derrotas servem para destruir, achincalhar um profissional. Assim como suas vitórias não devem servir para colocá-lo no panteão dos deuses. Acho Dunga, como Felipão, dialético, trabalha de maneira interativa, na tentativa e erro ou acerto. Acho-o sério, mas não um gênio.

E agora que as manifestações do Irã caíram em desuso nas manchetes, por força da repressão e do terror, os jornais vão deixar de lado a revolta popular? Ou vai virar um novo mensalão, aquele acontecimento provado pela Procuradoria Geral da República e que ficou por isso mesmo? Achei graça das denúncias de fraudes que a oposição fez na Argentina. Eventos mínimos, falta de cédulas aqui e ali. Nem chega perto das nossas urnas eletrônicas, a caixa preta da ditadura fantasiada de democracia.

As perguntas são: quem é, de fato, Narváez e o que significa sua vitória, o que realmente ele vai fazer? O que Chavez tem a ver com Honduras? Quantos estão sendo assasinados no Irã? O que o Brasil está fazendo de fato para evitar a pandemia da gripe suína? Cumpram as pautas óbvias e não insistam no óbvio. Depois não se queixem que os blogs dêem uma surra nos jornalões. É preciso deixar de ser babaca. Chega a doer a maneira torpe com que a Globo está, finalmente, tratando a internet. Eles se deram conta que estão perdendo audiência, ou seja, grana e aí partiram para falar da internet, de levar em consideração o que rola na rede. Mas fazem isso instaurados na pompa de sempre e com a mania de manipular tudo.

UP-GRADE - OS CRIMES DE CHAVEZ EM HONDURAS

A equipe do Diário da Fonte (este jornal tem equipe!) descobriu a ligação de Chavez com Honduras. Chavez subsidiava a política de suborno popular promovida pelo presidente deposto, distribuindo tratores, por exemplo; cobrava abaixo da tabela para o petróleo em troca de fidelidade; e, o mais grave, imprimiu as cédulas do plebiscito proibido pelo Judiciário e o Congresso de Honduras, que estavam retidas numa base aérea. O presidente deposto tentou retirar à força as cédulas. Queria legalizar a reeleição, proibida pela Constituição, por meio de um referendo que poderia lhe ser favorável por meio da manipulação e dos desvios da politica de suborno popular acima referida (é proibido comprar voto!). Vejam que sujeito perigoso esse Chavez, que chegou a pedir a intervenção de seu tradicional aliado, os Esdados Unidos! Na hora decisiva é que se conhecem os "estadistas" da pseudo ideologia. Uma coisa é certa: reeleição ilegal é tropa na rua.

RETORNO - Imagem desta edição: Marechal Lott atrás de João Goulart. Lott garantiu a posse de JK em 1955 e foi candidato derrotado por Jânio em 1960. Nem sempre um movimento militar é golpe, nem sempre os civis são inocentes, nem sempre um presidente eleito pode fazer o que bem entender.

28 de Junho de 2009

Diário da Fonte
GIGANTE MASTIGA O ÁLIBI DA FALSA ZEBRA


Nei Duclós

O primeiro tempo da decisão da Copa das Confederações, em Joannesburgo, foi o melhor dos mundos para quem precisava mostrar coerência de análise contra o capitão Dunga. Perdendo de dois a zero para a Legião Estrangeira dos soccers, o técnico da seleção agora campeã poderia novamente ser execrado, como aconteceu antes da atual campanha vitoriosa. Até a final, não davam (como não darão jamais) o braço a torcer. Dunga era uma “surpresa”, jamais um técnico competente que conseguiu arrumar o time. Suas vitórias eram “extraordinárias”, jamais obedeciam à lógica de sua estratégia bem sucedida. Bastava uma derrota na final, e pronto, estava tudo certo. Mas a virada de 3 a 2 serviu como lição.

É preciso dizer que a chamada zebra, os Estados Unidos, era falsa, pois tinha demonstrado sua fraqueza ao perder para nós por 3 a zero e já sabíamos com antecedência que a seleção americana obedece à realidade do “grande irmão “ do norte, um país que tenta desmoralizar o futebol batizando-o com um nome viado e colocando o esporte exclusivamente nos pés das suas mulheres (nossa seleção feminina ainda vai dar um toco nelas). Os caras que se dedicam ao jogo são quase todos estrangeiros ou quase, adventícios, já que a legitimidade e a macheza, nos Estados Unidos, são para aqueles jogos em que eles seguram o pau na mão, ou o outro em que colocam calça liga para destacar a bundinha dura e ficam se agarrando e se cagando de pau o tempo todo, enquanto a pobre da bola oval foge desesperada.

Quer dizer, os EUA não eram parada para o gigante pentacampeão do mundo, que tem um craque por metro quadrado, fruto da intensidade da sua cultura esportiva voltada para o futebol, o jogo aprendido na várzea, com as sobras dos embates ingleses. Ronaldinho Gaúcho nem foi convocado. Tivemos uma seleção de estreantes, praticamente, pelo menos para mim, que não conheço ninguém. Daniel Alves, Ramires, Felipe Melo, Luisão? Conhecia Lúcio, o líder do glorioso escrete canarinho nesta campanha, mais Robinho, Kaká, Luis Fabiano, entre outros. Ou seja, Dunga montou seu time como quis e se deu bem.

Perder para os gringos seria o álibi perfeito para a crítica instrumentalizada contra a seleção de Dunga. Mas bastou colocar a cabeça no lugar durante o intervalo para fazermos o primeiro gol aos 45 segundos do segundo tempo. Depois que o bandeirinha roubou um gol feito da bola que entrou toda e foi retirada do fundo pelo goleiro espertalhão, fizemos o segundo, até que Lúcio, de cabeça, selou o destino da partida. O choro de Lúcio é o nosso choro. Vencemos, caralho, contra todas as falsas evidências.

E vencemos porque temos tradição e um acervo para mil selecionados de futebol. Só o banco poderia dar uma lavada nos caras, que fizeram seus dois gols de escapada, como dizíamos em Uruguaiana, a covardia do contra-ataque fulminante. Quero ver cavocar o ninho da coruja, driblar uma legião de centuriões, quebrar a varinha de condão das profecias negativas e penetrar no gol com bola e tudo. Quero ver fazer como Kaká, que carregou a bola e o adversário para o fundo e cruzou, para que Luis Fabiano completasse.

É uma questão de superioridade manifesta. Não existe essa de que todos os times hoje são iguais. O que é igual são as dificuldades. Todos precisam enfrentar o mesmo tipo de problema. Mas cada um joga o que sabe com o que tem. O Brasil - é preciso dizer? - sabe demais e tem um acervo infinito.

Somos campeões da Copa das Confederações de 2009, líderes das eliminatórias, tudo obra de Dunga, apoiado nos tesouros nacionais (o próprio povo organizado em inúmeros times e bandeiras), o técnico chamado aos berros de burro e tratado aos pontapés pela crítica dita especializada. São vitórias também do Diário da Fonte que pode, como fazem os comentaristas esportivos, alardear que essa bola – o acerto na escolha de Dunga - nós tínhamos cantado antes. E se por acaso a seleção tropeçar, como já aconteceu muitas vezes, não caiam matando em cima do técnico nem expressem com tanta veemência esse espírito de vira-latas. Digam: acontece. Somos parte do gigante, a pátria amada.

RETORNO - Imagem desta edição: Lúcio, capitão do time e autor do gol do título.