23 de maio de 2013

Diário da Fonte
ADVENTÍCIA



Nei Duclós

Prefiro teu perfil, prudente escolha
para não me agitar onde te molhas
ferve tua água em sujo vermelho
planta adventícia que se espalha

Fujo de ti, vulcão de extinta trégua
minha pele ferida por tua lava
hoje sou a cinza do que foi memória
vítima da medusa de olho pétreo

Exagero para que sintas o baque
do que fizeste em mim, musa tórrida
mergulhei teu magma, era armadilha

Habituei meu corpo a viver na farra
ao redor da montanha não confiável
me derrubas da cama em plena glória


Diário da Fonte
SOMOS A CRIAÇÃO



Nei Duclós

Somos a criação, na mesma sintonia. Pássaros saem de nossos olhos plenos de poesia.

Perdi tempo ao não vir aqui, pensava. Mas ela me contrapôs uma fala. Me deixasse acumular o que agora te abraça, me disse.

Há tempos não a visitava. Ela me colocou seus tesouros na sala. Sorria entre artes e poemas, a fada.

Somos estranhos mas nos inventamos próximos. Fazemos mágica.

Voei, contigo junto. Descobri: tenho asas.

 Reparta o que sonhou, faço parte desse acervo. Somos uma biblioteca na mesma varanda.

Não suma de mim agora que houve pele. Compartilhe a sensação de ter vencido.

Te beijo, como combinado. Está escrito numa agenda, desde o início dos tempos.

Gosta de estar comigo, delícia no alto. Banho de luz entre corpos imaginados.

É impossível que não acabe em abraço. Fomos destinados ao amor, limite de horizonte.

Agora te convenço que vim de um caos sem ruído. Me ordenas infinito, sonho paralelo.

Não preciso dizer mais eu te amo. Basta esse andar contigo, no cais de um universo que se salva.

É raro me sentir assim, à altura da tua graça. Quase toco tuas alturas, nuvem de prata.
Não suma de mim agora que houve pele. Compartilhe a sensação de ter vencido.

Te beijo, como combinado. Está escrito numa agenda, desde o início dos tempos.

Gosta de estar comigo, delícia no alto. Banho de luz entre corpos imaginados.

É impossível que não acabe em abraço. Fomos destinados ao amor, limite de horizonte.

Agora te convenço que vim de um caos sem ruído. Me ordenas infinito, sonho paralelo.
 
Ninguém apagará o sentimento que gera a palavra. Bate o coração no fundo sonoro do espanto.

Tenho de partir assim de pronto. Grude teu lenço em meu pescoço. Viajo com teu cheiro e o vento batendo num telegrama saudoso.


21 de maio de 2013

Diário da Fonte
AMOR ATRAPALHA



Nei Duclós

Amor atrapalha
União
de contrários

Amor
feito carne
e não retoque
de imagem

Amor sincero
amarra

Todo coração
saca



RETORNO - Imagem desta edição: Claudia Cardinale.

Diário da Fonte
GRITO TARDIO



Nei Duclós

Antecipei a viagem por isso não escutei teu grito tardio de socorro

Fui teu herói por algum tempo. Mas aí venceu o prazo da locadora e tiveste que me devolver

Entendi que nosso amor foi treino para brilhares em outro campeonato.

Fui catar palavras no jardim. Só achei flor. Ela tinha nascido nos rastros da tua visita.

Já tinha dispensado a solidão. Mas precisei readmiti-la, depois que o amor ficou demissionário.

O domingo é inútil se não abres os olhos do que tens mais doce. Esse singelo despertar
entre lírios

Te namorei em sonho a noite toda. Te levei, noiva, carreguei para longe, li teus versos, louca, cheirei teu ombro depois voltei a te esperar sem trégua.

Amor, não esqueça.

Esqueci um verso no bolso. Achaste quando tua mão procurou fugir do frio. Era um poema de amor.

Longe da terra, perdemos o vinculo com a palavra. Nosso vocabulário encolhe, artificial, virtual. As plantas, nuvens, pássaros ficam sem forças para transmitir sangue ao verso. Tornam-se memória de um planeta distante, o tempo que sumiu.

Feminina. Lâmina com endereço. Rasgo rente à fundura. Rapto com açúcar.

Despertas comigo fazendo o café do poema. Pão quente ainda de sono, entusiasmo de menino. Só com a palavra já ficas bala. Imagina se eu te der uma flor.

Acordar com teu calor. Por baixo da roupa é verão.



RETORNO - Imagem desta edição: obra de Jack Vetriano.


20 de maio de 2013

Diário da Fonte
DOSE



Nei Duclós

Melhor não exagerar na dose
ser como aves em voo coletivo
prudência no pousar do agarro
firmeza quando houver o toque

Ciscar palavras, um bater de asas
definir limites, a lua além do mar
isolar súbitos promontórios
um atol de corais antes da Escócia

Desovar nas tardes sem vitórias
tirar-te as plumas, pássara Roca
perfume de jasmin, choro de salso

Estar aquém, submeter-se no querer
aguardar na curva da escuro sórdido
para te pegar, musa que eu adoro

 
RETORNO - Imagem desta edição: obra de Jack Vetriano.